contos do dia e da noite

Recolhas de aqui e acolá

Mais uma vez me deparo com os excertos de alguns textos que gosto. Retiro esse de "Ao cair da tarde", de Oliveira Paiva, escritor cearense ali do fim do século XIX. O conto descreve a ida de um rapaz ao cemitério. Algumas passagens:

(...) O ambiente refrescava, e o céu se alargava como uma enorme colcha azul com pinturas cor de leite e de cinza e de laranja...

(...)Para o lado de terra branqueava lá no fim de uma avenida despo­voada uma igrejinha nitente.., espalhava-se a superfície dos matos... recortava-se o dorso das serras, onde umas nuvens pareciam estar pre­gadas, e sentia-se os últimos pestanejamentos do sol(...)

(...) Por entre um alvo colo dos morros se apresentava o enorme lombo do mar azul. Viam-se os trilhos do caminho de ferro escapando-se por entre a garganta vermelha de uma duna rasgada até à raiz... Numa en­costa polvilhada de pequenos matinhos assentava uma palhoça, donde um caminho oblíquo vinha pela areia abaixo, e subia um pequeno andra­joso conduzindo um pote d'água.*

Já essas outras passagens são de Carlotinha da mangueira, de Gentil Braga, maranhense, que não conhecia, tive meu primeiro contato com o escritor no volume "O Sino e o Relógio – Uma Antologia do Conto Romântico Brasileiro", da editora Carambaia. Esse foi, de todo o livro, o conto que me arrebatou. Segue:

(...) Nas noites de luar dorme sempre a menina ao relento em uma esteirinha leve ao sopé de um jasmineiro. Nas noites escuras vela até alta madrugada à luz de um antigo candeeiro, brincando com uma borboleta negra, que uma vez lhe pousou no ombro e que, depois de morta, foi guardada num branco envoltório de cânfora.(...)

(...)Um dia viu ela um pirilampo a esvoaçar sobre o seu vestidinho branco, e assustou-se; de outra vez ouviu o canto de acauã e entristeceu; lavou, por fim, uma criancinha morta, e tremeu convulsivamente.(...)

(...)Ao nascer do sol estava Carlotinha encostada ao tronco da mangueira, imóvel, inteiriçada e fria, tão fraca e branca, tão triste e linda, que fazia dó o ver-se-á, e o coração se apertava. O primeiro raio do sol, beijando a boca da menina, vibrou nela um som fraquinho e harmonioso; de todo o seu corpo desprendeu-se a música suave do vento a bater nas folhas da anêmona, e, quando a procuraram nas horas calmosas do dia, viram-na morta e encostada ao tronco da mangueira.(...)*

E esse outro, que conheci navegando no site do projeto Tênebra, de Manuel Carneiro, o qual não sei nada, só que nasceu no Rio de Janeiro. Chama-se "Pela noite", e diz assim:

(...)Às vezes, quando a noite é mais densa, quando há sussurro na ramaria, gemidos de troncos que lascam, pios soltos na sombra, ruflar de asas negras fugitivas, as minhas conjecturas se atristam e penso e creio e juro a mim mesmo que há ali alguém que sofre, palidamente, como um cadáver estirado entre a roupagem branca de um leito onde o vulto já cavou as formas. E creio que seja uma mulher.*

(...)Creio… mas eu nem sei se creio. Parece-me vagamente que penso que todos devem ter uma janela iluminada no meio da noite. Devem tal a todos que têm a sua noite – de sombra impiedosa, de tremenda dor sagrada. O que sei bem ainda é se todo o olhar descobre, através da ramaria recurvada e alta, contra a parede iluminada, as mesmas sinistras sombras lutadoras… Ah! mas para os miseráveis tristes, como é lúgubre e funda esta terrível sombra, esta medonha noite, com suas visões espectrais, tremendas!(...)*

Esses são alguns que me vêm agora no topo da cabeça e que rumino há algum tempo. É certo que há mais, e que virão em oportunidade adequada. De Oliveira Paiva, gosto muito dessa descrição das cores, algo que parece se repetir nos seus outros contos, algo que li em um artigo, e por isso pretendo procurar e ler mais. Espero saber o menos possível da vida do autor e de suas crenças pessoais, que é meu grande pavor conhecer aqueles que mais gosto e admiro, inclusive os mortos. De Gentil Braga sei muito pouco ou quase nada, e não consigo encontrar com tanta facilidade a sua produção. E o último, de Manuel Carneiro, esse é que não encontro nada, tudo que procuro inevitavelmente desemboca no roteirista da Globo. E daí penso que só não é pra ser.

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